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sexta-feira, 22 de março de 2013

Matéria na Outside americana, estudos a serem analisados e Clínica amanhã, em SP.

CapaOutsideAcabei de ler uma excelente matéria sobre minimalismo e corrida descalça que saiu na edição de abril da edição americana da revista Outside.

A matéria, escrita por Andrew Tilin, é entitulada "You don't know how to run" (ou 'Você não sabe como correr') fala sobre a "guerra" travada entre adeptos dos minimalistas/descalços e os "tradicionalistas".  Tilin soube analisar os dois lados da moeda, sendo que não tem jeito - a ciência sempre acaba pendendo para os minimalistas. A Irene Davis (que esteve no Brasil no ano passado - leia aqui) é a grande fonte da matéria, inclusive botando o jornalista para correr na esteira e ver como funcionam os picos de impacto com o tênis e descalço.

Não quero acabar com a expectativa de ninguém. Compre a sua na banca, versão para tablets ou aguarde a edição brasileira traduzir a matéria nos próximos meses.

ESTUDOS. Tenho um amigo fisioterapeuta que me mandou alguns estudos muito interessantes sobre padrão de pisada e lesões. Devo analisar tudo na semana que vem. Aguardem!

CLÍNICA. Amanhã vou estar na Velocità Moema para a Clínica de Corrida Natural (veja o que é). Ainda dá tempo de se increver (clique aqui) ou o pagamento pode ser feito amanhã mesmo na loja.

Até lá!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Novo estudo diz que é necessário mais tempo para se adaptar aos VFF. Nós complementamos: cuide do fortalecimento específico.

O treinador e presidente da ATC-SP (Associação de Treinadores de Corrida de São Paulo), Nelson Evêncio, me alertou para o estudo "Foot Bone Marrow Edema after 10-week Transition to Minimalist Running Shoes" (ou "edema nos ossos dos pés após 10 semanas de transição aos tênis minimalistas"), que sairá na próxima edição do Medicine & Science in Sports & Exercise, o jornal oficial do American College of Sports Medicine (o artigo foi disponibilizado antes da publicação do jornal). O treinador Scott Douglas teve acesso ao estudo completo e fez uma matéria sobre ele na edição on-line da revista Runner's World americana (leia aqui). O estudo foi comandado Sarah Ridge, doutora em biomecânica e professora assistente da Brigham Young University, Utah, EUA.

Resumidamente, o estudo selecionou 36 corrredores que nunca tinham corrido com os VFF, que não tiveram nenhum tipo de lesão nos membros inferiores nos últimos 6 meses anteriores à pesquisa e que corriam pelo menos de 30 a 50 km semanais. Antes do estudo foram feitas ressonâncias magnética dos pés de todos eles. Dos 36, 19 passaram a fazer o programa "oficial" de transição para o uso de Vibram Five Fingers (disponível no site da Vibram - veja aqui), os outros continuaram a usar tênis convencionais (grupo de controle). Ao final do estudo, ao ser repetida a ressonância, dos 19 que fizeram a transição, 10 tiveram detectados edemas nos ossos dos pés em um grau próximo do que poderia ser definido como lesão por estresse . O restante foi diagnosticado como mudanças por adaptação ao novo estímulo.

Uma boa alma me enviou o PDF com o estudo completo, que pude ler com atenção. A conclusão, bem maior do que a que está no resumo do site é a seguinte: "Apesar de vários corredores terem adotado o uso dos Vibram Five Fingers, há uma falta de de consenso do que seriam as vantagens e desvantagens dessa mudança. Esse estudo examinou o potencial de fraturas por estresse a partir da presença de edemas nos óssos e danos aos tecidos dos pés [n.e. ex.fasciia] depois da transição aos VFF durante o período de 10 semanas. O grupo de VFF teve uma significativa incidência de edema nos óssos dos pés depois desse período de treinamento, enquanto não demostrou nenhuma mudança nos tecidos. Portanto, para minimizar o risco de fraturas por estresse nos ossos, corredores que queiram correr com VFF devem fazer a transição em um período maior do que 10 semanas e adotar uma intensidade (km semanal) menor do que os corredores desse estudo."

As questões que levanto sobre o estudo são bem simples. Por que ao fazer o programa de transição não adotaram os exercícios de fortalecimento recomendados no próprio site da Vibram (aqui)? Os pesquisadores afirmarm que alguns dos corredores estariam lesionados de acordo com as leituras de ressonância magnética, mas eles mesmos admitem que os corredores não reclamaram de dores. Ao meu ver, 10 semanas de transição é um período curto e no site da Vibram, o programa é de 13. Por que fizeram a ressonância depois de 10 semanas? Será que esse edema não cederia após mais tempo? Se um dos corredores estava com um edema no calcanhar significa que ele estava iniciando a pisada com o calcanhar?

Não estou aqui para defender os VFF, mas o uso adequado deles. Eu, pessoalmente, não acho que funcione bem a transição recomendada pela própria Vibram, ou seja, inserir o uso do Vibram gradualmente na quilômetragem semanal do corredor. Principalmente se não for adotado os padrões de fortalecimento recomendados por eles mesmos, como citei no parágrafo acima. Eu acho que a pessoa pode fazer a transição que quiser, mas o eficiente mesmo é "abolir" o uso dos tênis convencionais, pois eles acabam por manter a "matelada" no chão (o que, sem dúvida, vai gerar edemas) e faz com que o corredor volte a usar o calcanhar para iniciar a pisada toda vez coloca o tênis convencional nos pés e sai para correr.

Quem já fez a Clínica de Corrida Natural, sabe que eu defendo que a melhor forma de se adaptar aos tênis minimalistas é correndo descalço. E não é só eu que digo isso. O "xiita" Ken Bob Saxton, o pessoal de Harvard e outros dizem a mesma coisa. No meu caso, foi por experiência própria. Eu quase tive uma lesão por estresse no metatarso no início da minha adaptação e só consegui me acertar quando começei a correr sem nada nos pés. Cito isso aqui. O Leonardo Liporati, colaborador do Corrida Natural, também já deu seu "parecer" sobre o assunto (aqui). A meu ver, para "sacar" como é feita a aterrisagem natural dos pés, é necessário voltar a ter contato com o chão com os pés descalços. Essa experiência facilita muito a compreensão dos movimentos, da postura, cadência, etc.

Há também um excelente artigo publicado no site Portal da Educação Física entitulado "Fortalecimento do sistema motor é fundamental para o uso de Five Fingers" com opiniões de dois respeitados profissionais do meio. Um deles é o professor Júlio Serrão, que é coordenador do laboratório de biomecânica da Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP). Já fui a uma palestra do Júlio e temos opiniões bem parecidas.

O outro profissional é o amigo Mário Pozzi, coordenador do CEFIT (Centro de Estudos de Fisiologia do Exercício e Treinamento). Já entrevistei o Mário para uma matéria "Adapte-se aos Minimalistas", que saiu na revista Contra-Relógio no ano passado (leia aqui). Nela, ele diz que obedeceu os critérios de adaptação e fortalecimento muscular da Vibram e seus atletas nunca tiveram problemas e nunca se lesionaram usando o VFF.

Voltando à matéria do Portal Educação Física, os dois profissionais alertam que é primordial o fortalecimento da musculatura quando estamos nos adaptando aos minimalistas, no caso, o VFF. De fato, quando entrevistei a fisioterapeuta Irene Davis, que tem doutorado em biomecânica e dá expediente em Harvard, ela afirmou que trabalhava a musculaturas intrínsecas e extrínsecas dos pés, ensinava os pacientes a correrem descalços na esteira e só depois de dominarem a técnica, é que "permitia" que eles usem um minimalista. Irene veio a um Simpósio de Lesões de Corrida promovido pela UNICID em dezembro de 2012. Veja aqui os exercícios que ela recomenda.

Só para lembrar, a única coisa analisada no estudo foram os "ossos dos pés" e a quilômetragem semanal. Devo lembrar que um estudo parecido, que não levava em consideração o fator lesão, os corredores com Vibram melhoraram sua economia de corrida em 7% após 4 semanas de transição gradual aos VFF (leia aqui).

Como sempre digo, é necessário paciência, pois a adaptação leva tempo para acontecer e também mais algum período para o corredor se sinta à vontade para fazer todos os tipos de treino (rodagens ou qualidade). Correr descalço sempre ajuda a compreender melhor a dinâmica da corrida e esse estudo foi bom para nos lembrar que o fortalecimento tem um papel fundamental para que a transição seja bem sucedida.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Adidas Boost: será que o "retorno de energia" é uma coisa tão importante assim?

Quem lê os blogs e sites que recomendo aqui, deve ter acompanhado o lançamento do Adidas Boost. A Adidas diz que irá revolucionar o mercado de running com um novo composto de entressola feito de TPU (Poliuretano termoplático) que dá 85% de retorno de energia a mais do que a tradicional espuma de EVA (Etil Vinil Acetato).

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Das questões levantadas (que eu faço coro) e as que eu tenho são as seguintes:

1) Onde estão os estudos comparativos com pessoas correndo de verdade em laboratórios de biomecânica? Como Peter Larson e Amby Burfoot disseram, não somos esferas de metal e nosso corpo tem músculo, tendões e articulações que se comportam de maneiras bem distintas. Também não somos "ovos" como na propaganda do "Gel" da Asics.

2) Maior retorno de energia se traduz em menor energia despendida na corrida? Em quanto isso afetará o rendimento do atleta? Porque esses dados não estão disponíveis?

3) Se o atleta tem boa técnica de corrida, ele realmente precisa de um calçado que melhora o retorno de energia?

4) Se a entressola aumenta o retorno de energia a níveis nunca antes vistos  "nesse país" e até capaz de baixar para sub 2 horas o recorde mundial da maratona, isso não é uma ajuda ilegal, assim como foram considerados os tênis da Spira (leia aqui)?

5) Será que essa ajuda da entressola só é útil para quem usa o calcanhar para correr (que é menos eficiente), já que na corrida natural diminuimos o impacto da corrida ao usar o antepé e, portanto, geramos menos ação e reação do solo?

6) Adianta ter um monte de "retorno de energia" se o tênis pesa 280 gramas e tem 10 mm de drop? É sabido que o peso do calçado interfere diretamente na performance do altleta...

7) O tênis custa US$ 150 nos EUA, mais caro que um Nimbus, por exemplo. Quanto será que vai custar por aqui? R$ 700?!

8) Durante anos e anos o importante não era o amortecimento (ex. gel Asics)? Por que agora, de repente, para "revolucionar" a corrida, o retorno de energia virou a bola da vez?

9) Ser mais resistente a altíssimas e baixíssimas temperaturas vai adiantar algo para nós aqui no Brasil? Deve ajudar aqueles malucos que correm os 217 km da Badwater, com certeza, pois dizem que a sola do tênis derrete por lá (a temperatura chega a 55 graus...).

Lembrem-se! O mais importante na corrida é você, o seu treinamento e a sua técnica. Você é o protagonista. O tênis é apenas um ator coadjuvante nessa história. O Danilo Balu certa vez me disse uma coisa que se aplica diretamente a essa tecnologia: "o ser humano é muito arrogante em pensar que pode melhorar algo que passou por milhares de anos de evolução e seleção natural".

O amigo Antônio Colucci, que faz parte de um grupo de corredores que recebe produtos da Adidas com antecedência, reproduziu o release oficial da marca e dá mais algumas informações sobre o tênis aqui. Mais informações no site oficial da Adidas aqui

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Que tal correr descalço na areia?

NE: mais uma colaboração do professor Marcos Almeida.

Correr descalço ou com calçado minimalista tem se tornado bem popular nos dia atuais. Não sei qual a sua experiência neste tema mas posso informar-lhe que é muito legal, lúdico e com um grande – imenso – sentido de liberdade. Para tornar esta esta prática rotineira no seu cotidiano, cuidados são necessários. Como ponto de partida, seguir o importante Princípio do Treinamento Desportivo que é o da sobrecarga – simples e fácil, tendo somente que ser do mais fácil para o mais difícil, ou do menor para o maior relacionado ao tempo e intensidade. Relatarei a seguir teorias sobre o tema visando lhe dar subsídios para esta prática.

Em uma pesquisa americana, 75,7% dos 785 corredores indicaram que estavam pelo menos um pouco interessado em correr descalço ou com calçado minimalista. O estudo também revelou que 30,4% haviam tentado calçado minimalista e 85,5% daqueles que eram susceptíveis de continuar usando estes calçados ou andar descalço durante o treinamento, fariam com a condição de ter instrução suficiente. Esta pesquisa ainda indicou que a prevenção de lesões foi o principal fator de motivação para correr descalço ou com calçado minimalista e ainda 54% indicaram que o medo de lesão foi o fator principal para limitar a corrida descalça ou com calçado minimalista. Estes estudos mostram a importante consciência dos seres motrizes em questão, relacionadas a lesões nesta prática.

Vários autores sugerem que os pés que são rotineiramente expostas a condições de calçados são muito diferentes daqueles que seguem a filosofia do pé descalço. Diferenças na flexibilidade do pé foram observados entre usuários de calçados habituais contra os seus homólogos com os pés descalços. É extremamente importante registrar que a transição para calçado minimalista ou o “puro sangue descalço” necessita de uma progressão, seguindo os Princípios do Treinamento Desportivo, direcionando lentamente no que diz respeito a quilometragem e tempo. Casos de corredores que desenvolveram estresse de metatarso após a adoção de calçado minimalista, especula-se que o calçado minimalista foi a causa e que as alterações da marcha e reduções iniciais em volume/ritmo, como dito anteriormente, são essenciais em uma transição direcionada para treinos sistemáticos ou apenas os regenerativos.

É possível que a incorporação de calçado minimalista ou descalço em parte ou total da atividade pode levar a benefícios positivos para o corredor, tais como economia de corrida – relacionado a gasto energético – e melhor propriocepção – que é a percepção do seu corpo no espaço. Importante novamente frisar que qualquer inclusão de calçado minimalista ou descalço em seu treinamento, deve envolver uma progressão lenta e acompanhamento regular para garantir uma transição segura e evitar danos potenciais.

Uma sugestão que deixo por aqui, já que vivemos num país tropical e sempre tendo por perto praias com as suas areias, seria realizar suas corridas neste tipo de piso, visto que se estiver pelo litoral vai perceber que várias pessoas passam correndo, descalças, talvez sem saber de toda esta teoria em questão, com pouco impacto e um belo trabalho de propriocepção e ainda com divertimento garantido. Se não está acostumado a este tipo de piso, atente para as fases da pisada, buscando fugir da contato inicial do calcanhar na areia. Por ser diferente e causar desequilíbrios, seja pela areia irregular ou inclinações no piso, vai te exigir muito mais atenção na sua corrida, pois para quem está começando, é fato que o piso duro é muito mais fácil. Recomendo o uso de calçados minimalista ou simplesmente a chamada corrida natural na sua essência, os pés descalço e seguindo sempre os princípios citados anteriormente.

Bons treinos e grandes emoções!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Estudo mostra diferença de padrões de pisada entre quenianos. Isso muda alguma coisa?

Estudo publicado na Plos One, uma revista científica online, revelou que nem todos os quenianos que cresceram sem usar calçados tem o mesmo padrão de pisada quando correm.

No trabalho entitulado "Variation in Foot Strike Patterns during Running among Habitually Barefoot Populations" ("Variações de padrão de pisada durante a corrida entre populações habitualmente descalças", em tradução livre), os pesquisadores buscaram entender a evolução do padrão de pisada dos seres humanos e encontraram dados diferentes dos colhidos na pesquisa liderada pelo professor de Harvard Daniel Lieberman, no famoso estudo publicado na revista Nature, em 2010. Na ocasião, o padrão de pisada constatado era, em sua maioria, o antepé e foi feita com quenianos da tribo Kalejin (estimo que pelo menos 95% dos quenianos que disputam provas mundo afora são dessa etnia).

Na pesquisa, agora liderada pelo professor Kevin Hatala, da Universidade George Washington, quenianos da tribo Daasanach foram testados e para surpresa dos pesquisadores, nas velocidades baixas, o padrão de pisada preponderante era o retropé, ou o calcanhar.

Opa! Então está tudo errado? Lógico que não. Veja bem, os Daasanach não são uma tribo de corredores "por natureza". Digo, não há corredores entre eles. Na pesquisa de Harvard, os Kalejin corriam ao menos 20 km semanais e os Daasanach nem chegam nem perto disso. E veja bem, eles usavam o retropé, ou calcanhar, como queira, quando estavam em velocidades mais lentas (no alto, foto 1). O que aconteceu quando a velocidade era maior? A maioria optou  pelo antepé (no altofoto 2).

A grande diferença entre as duas pesquisa é que Liberman comparou pessoas que corriam habitualmente descalças e a pesquisa de Hatala é sobre corrida em populações descalças, o que é uma grande diferença.

Quando começamos a correr, descalços ou não, há um tempo para que nós possamos buscar o que é mais eficiente. A meu ver, os resultados da pesquisa foram precipitados ao dizer que o padrão de corrida entre as populações habitualmente descalças não é apenas o antepé.

Veja bem: tudo se baseia em cultura de corrida, adaptações musculares, entre outros. Para mim, nada mudou. Nem para os pesquisadores, que reconhecem que o uso do antepé na aterrisagem é mais eficiente e é isso o que realmente importa.

O que podemos constatar ao final, é que mesmo sendo "habitualmente" descalço, só quem é um "usuário" habitual de corrida descalça é que desenvolve o padrão "natural" de corrida, ou seja, iniciar a pisada com o antepé. O ideal seria que os pesquisadores colocassem os Dassanah para correr pelo menos uns 10 km semanais. Não tenho dúvida que o resultado seria diferente.

Voltando ao que eu disse há dois parágrafos atrás: ao dizer que o padrão de corrida entre as populações habitualmente descalças não é apenas o antepé, temos que entender que não é o antepé pois é necessário ser um corredor habitual para que isso ocorra.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Estudo: adaptação gradual ao VFF melhora a economia da corrida

Foi divulgado no site Runblogger, de Peter Larson, um novo estudo comparando o uso de tênis convencionais e os Vibram Five Fingers – chamados pelos pesquisadores como “simuladores de corrida descalça” (clique aqui). O resultado? Correr de VFF é 7% mais eficiente do que correr com tênis convencionais contanto que se faça uma transição gradual.

O trabalho entitulado “Four week habituation to simulated barefoot running improves running economy when compared with shod running” (ou “Quatro semanas de condicionamento à corrida descalça simulada melhora a economia da corrida quando comparada com os tênis tradicionais”, em tradução livre) e publicado no Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports  (ou “Jornal Escandivano de Medicina e Ciência do Esporte”), foi desenvovido por J.P. Warne e G.D. Warrington, pesquisadores da Universidade de Cidade de Dublin, Irlanda.

COMO FOI FEITO O ESTUDO. A intenção, como  o próprio título diz era investigar se quatro semanas de um trabalho de adaptação à corrida com os VFF afetariam a economia de corrida dos atletas. Para tanto, os pesquisadores selecionaram 15 corredores da própria universidade. Todos corriam de 6 a 7 vezes por semana e percorriam pelo menos 50 km semanalmente.

Cada um deles recebeu um VFF (não há menção ao modelo) e um tênis tradicional para pisada neutra (como não li o estudo, há informações conflitantes no post de Larson, que teve acesso ao paper completo. Há momentos em que ele cita que o tênis pesava 450 gramas, em outro momento 350 g e depois 400 g. Acho difícil achar um tênis que pese 450 g hoje em dia. É muito mais verossímil, um de 350 g – que é aproximadamente o peso do Nimbus da Asics, por exemplo - mas só com o estudo completo em mãos para saber o real peso do tênis).

Antes do estudo foi feito um pré-teste, em que os atletas correram em duas velocidades diferentes na esteira – 11 km/h (5:27 min/km) e 13 km/h (4:36 min/km). Nesse pré-teste foram medidos o consumo de oxigênio, batimentos cardíacos, sensação nominal de esforço, cadência e padrão de pisada para cada calçado – o de corrida descalça simulada e o tênis tradicional.

Depois desse teste, os corredores receberam um programa de adaptação ao uso do VFF de quatro semanas. Nesse programa, o treino com VFF era adicionado à rotina dos atletas de forma gradual, começando com dois treinos de 15 minutos na primeira semana até chegar em 3/4 treinos de 30 minutos na última. Ao final das quatro semanas, o mesmo teste realizado previamente ao estudo foi repetido.

RESULTADO. No pré-teste não houve diferença significativa de economia de corrida entre os dois calçados. A única coisa a ser notada é que a cadência usando o VFF era maior do que quando se usava o tênis tradicional.

Já no pós-teste, a coisa ficou mais legal. A economia de corrida com o VFF aumentou 8% (!), a sensação nominal de esforço diminuiu 9,45% (!) e o padrão de pisada ficou mais direcionado ao ante-pé. Mas o que saltou ao olhos dos pesquisadores foi que a economia de corrida comparando o VFF com os tênis tradicionais ficou em 7% (!). A melhora de economia usando tênis convencional ficou em 2%, quase irrelevante e prevista, já que houve é relacionada à adaptação pela adição de volume de treino nas quatro semanas.

Os pesquisadores levantam a hipótese de que a combinação do aumento da cadência somado ao padrão de pisada com o ante-pé pode ter resultado em uma recuperação mais efetiva da energia elástica dos músculos e tendões das pernas e dos pés. Eles também sugerem que o aumento da sensibilidade em relação ao chão (feedback) quando se está usando um calçado de corrida descalça simulada, através de um período de aprendizado motor, pode levar a um “aumento da coordenação e pré-ativação dos músculos dominantes na antecipação do contato com o chão” e o resultado da mudança da técnica poderia explicar os benefícios da economia de corrida nos tênis verdadeiramente minimalistas.

O QUE EU PENSO SOBRE O ESTUDO. Achei um resultado muito interessante e que deve ser levado realmente em consideração até por ter feito algo que ainda não tinha sido feito antes (e se foi feito, não foi ainda publicado) – corredores sem experiência com o descalço ou minimalista e um período de adaptação. O próprio Larson faz referência a outros estudos que compararam o descalço (ou simulado) com os tênis tradicionais (clique aqui), e eu também citaria o estudo feito por Lieberman (clique aqui). Esses trabalhos tomaram como partida corredores habitualmente descalços ou já adaptados aos minimalistas. Outros que nem levei em consideração faziam estudos similares ao pré-teste desse estudo, com resultados similares.

O que precisávamos mesmo era um comparativo levando em consideração um período de adaptação ao tênis minimalista e ver o resultado, que nesse caso foi muito positivo. Sinto que esse é mais um dos muitos estudos que estão sendo desenvolvidos mundo à fora e que cada vez mais as evidências ficam do "nosso lado".

A conclusão que chego é a mais evidente possível – a corrida natural é melhor, mas para se beneficiar é necessário se adaptar de forma gradual. Mas como foi visto, não é algo tão dramático como alguns pregam. Ou seja, basta ter cautela para ser bem sucedido.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A corrida descalça e a curiosidade científica



A comunidade científica/esportiva adora o tema "correr descalço". Porém, ao invés de tentar entender o porquê de correr descalço gerar menos impacto nas articulações, parece que a diversão atual de parte desse pessoal é pegar argumentos dos descalços e produzir estudos para tentar derrubá-los. Tudo bem, isso faz parte do jogo.

Já tivemos aquele em que disseram que correr com um tênis de 150 gramas é mais vantajoso do ponto de vista metabólico do que correr descalço (leia aqui). Daí você tem acesso ao estudo e vê que o "descalço" era correr de meias antiderrapantes em uma esteira. Descalço é descalço e acabou. Estar de meias não é estar descalço.

Hoje, o amigo Cássio Politi me mandou o seguinte tuíte: "@Sergio_CR Viu isso? O estudo diz que barefoot não fortalece os pés. Difícil de engolir, não? http://bit.ly/MvxIaM". Fui lá ler. É o blog Sweat Science, do Alex Hutchinson, que leio com frequencia. Lá ele fala sobre o estudo apresentado por pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, EUA, no último congresso da Faculdade Americana de Medicina Esportiva, dia 31 de maio.

O título é "Magnetic Resonance Analysis of Intrinsic Foot Musculature during Running in Shod and Barefoot Conditions" (ou, "Análise de resonancia magnética da musculatura intrínseca do pé durante a corrida com tênis e descalço"). A intenção dos pesquisadores era ver se havia diferença na ativação dos músculos dos pés com as duas condições. Pegaram quatro corredores (isso mesmo, apenas quatro) e fizeram uma ressonância magnética no pé direito de cada um deles. Então, os quatro corriam uma milha (isso mesmo, apenas uma milha, ou 1,609 km) descalços na esteria e a ressonância era feita novamente. 48 horas depois, repetiam a experiência com os corredores usando tênis.

Conclusão dos pequisadores: correr uma milha na esteira não resulta em ativação significativa dos músculos intrínsecos dos pés (jura? ah, vá!). Correr descalço não resulta em ativação maior desses músculos comparativamente à correr com tênis. Isso sugere que correr descalço talvez (isso mesmo, talvez) não resulte em fortalecimento dos músculos intrínsecos dos pés."

Para começo de conversa, existem várias maneiras medir o esforço da musculatura durante qualquer tipo exercício. Já vi fazerem isso em laboratórios de biomecânica. Colocam-se eletrôdos nos pés e se consegue ver quanto calor tal ponto está produzindo, portanto, acionamento da musculatura (se algum expert do assunto estiver lendo, por favor me corrija). Agora por que foram medir antes e depois de correr? Método científico? Sei lá! E tem mais, 1,6 km? Não dá tempo nem de aquecer o corpo, companheiro!

No final das contas, eu acho isso tudo divertido: ver parte da comunidade científica pesquisando o assunto e olhando de forma errada. São os cientístas que tem que ver as coisas "por fora da caixa". Até porque eu, na minha insignificancia, não consigo provar que correr descalço deixa o meu pé mais forte ou não. Para mim, já está provado que correr com a técnica da corrida descalça resulta em menos impacto na corrida. Eu sinto isso, literalmente na pele. São mais de dois anos sem me lesionar.

A técnica da corrida descalça, ou técnica natural, pode ser praticada com qualquer tênis (vide o amigo e fisioterapeuta David Homsi, que mesmo usando um tênis "tradicional" corre começando a pisada com o antepé). É lógico que com um tênis com o calcanhar elevado e muito "amortecimento", isso fica muito mais difícil de ser feito. Eu mesmo não corro exclusivamente descalço.

Bom mesmo é saber que há cientistas que não procuram simplesmente tentar derrubar os argumentos dos descalços/minimalistas, e que há muitos estudos rolando por aí sobre esse assunto, inclusive no Brasil, e teremos muito assunto e estudos para discutir futuramente.

Mas, por favor, meus caros colegas do mundo acadêmico, apresentar um trabalho feito com apenas quatro corredores, correndo apenas uma milha? Faça-me o favor! Me poupe!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Novo estudo diz que não há vantagem metabólica no correr descalço...

...contanto que você esteja correndo com um tênis que pese 150 gramas e não comece a pisada com o calcanhar, ou seja, contanto que você seja um corredor mais eficiente.

O estudo chamado "Metabolic Cost of Running Barefoot versus Shod: Is Lighter Better?" (ou "Custo Metabólico de correr descalço ou com tênis: quanto mais leve melhor?") foi submetido por Jason Franz, Corbyn M. Wierzbinski e Rodger Kram e aceito pelo American College of Sports Medicine. A intenção era quatificar os "efeitos metabólicos" ao se adicionar massa aos pés dos corredores e comparar o consumo de oxigênio e a potência metabólica quando se corre descalço ou com tênis.

Eles selecionaram 12 corredores com boa experiência na corrida descalça e colocaram os sujeitos correndo na esteira com uma velocidade de 12 km/h (5 min/km). Durante um período de 5 minutos, o atleta corria descalço, alternava para tênis leves (150 gramas - Nike MayFly), tênis de 300 gramas e  400 gramas. Para cada situação foi medido o consumo máximo de oxigênio, produção de dióxido de carbono e a potência metabólica.

O resultado é que correndo com tênis de competição, se constata uma vantagem metabólica de 3 a 4% em relação à corrida descalça. Os tênis de 300 g e 400 g "perderam" a disputa.

Então há de se concluir que correr de tênis é melhor que correr descalço, certo? Calma lá, cowboy. Vamos ver por "fora da caixa". O estudo foi feito com corredores "descalços" experientes. Portanto, todos eles começavam a pisada com o antepé, tinham a pisada mais curta e eram, portanto, corredores mais eficientes do ponto de vista do gasto energético.

Então, é assim que eu vejo a conclusão da pesquisa: para se obter vantagem metabólica usando tênis de competição (150 gramas ou menos), é necessário correr descalço para aumentar sua eficiência biomecânica. Ou seja, correr descalço é benéfico ao ponto de se ter rendimento melhor correndo com tênis leves (competição ou minimalistas).

Se a pesquisa tivesse usado outros grupos de corredores, como os que tradicionalmente começam a pisada com o calcanhar, é óbvio que os resultados teriam sido diferentes, como já notado em outros estudos como os do professor Daniel E. Lieberman, da Universidade de Harvard.

Mais um estudo interessante, com resultados igualmente interessantes. Está ficando cada vez mais evidente de que menos é mais e está mais do que na hora das macas repensaram o amortecimento dos tênis.

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EDIÇÂO

Um leitor deste blog, Adolfo Neto, alertou que o estudo é questionável já que os corredores não correram absolutamente descalços na esteira, e sim, usando uma meia de yoga anti-derrapante. Isso mudaria totalmente os resultados da pesquisa pois os corredores foram avaliados de forma incorreta, já que não puderam correr descalços de verdade, ou seja, sem nada nos pés.

Eu estou de acordo com ele, pois qualquer coisa que se coloca nos pés, por mais leve que seja, muda a percepção do solo, altera-se a postura e não se corre do mesmo jeito. Digo isso por experiência própria.

Aliás, decidiram colocar as meias "por motivos higiênicos e de segurança", o que revela desconhecimento da corrida descalça e preconceito, pois era só limpar a esteira com um papo embebido de álcool que ela já estaria pronta para outra.