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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Estudo mostra diferença de padrões de pisada entre quenianos. Isso muda alguma coisa?

Estudo publicado na Plos One, uma revista científica online, revelou que nem todos os quenianos que cresceram sem usar calçados tem o mesmo padrão de pisada quando correm.

No trabalho entitulado "Variation in Foot Strike Patterns during Running among Habitually Barefoot Populations" ("Variações de padrão de pisada durante a corrida entre populações habitualmente descalças", em tradução livre), os pesquisadores buscaram entender a evolução do padrão de pisada dos seres humanos e encontraram dados diferentes dos colhidos na pesquisa liderada pelo professor de Harvard Daniel Lieberman, no famoso estudo publicado na revista Nature, em 2010. Na ocasião, o padrão de pisada constatado era, em sua maioria, o antepé e foi feita com quenianos da tribo Kalejin (estimo que pelo menos 95% dos quenianos que disputam provas mundo afora são dessa etnia).

Na pesquisa, agora liderada pelo professor Kevin Hatala, da Universidade George Washington, quenianos da tribo Daasanach foram testados e para surpresa dos pesquisadores, nas velocidades baixas, o padrão de pisada preponderante era o retropé, ou o calcanhar.

Opa! Então está tudo errado? Lógico que não. Veja bem, os Daasanach não são uma tribo de corredores "por natureza". Digo, não há corredores entre eles. Na pesquisa de Harvard, os Kalejin corriam ao menos 20 km semanais e os Daasanach nem chegam nem perto disso. E veja bem, eles usavam o retropé, ou calcanhar, como queira, quando estavam em velocidades mais lentas (no alto, foto 1). O que aconteceu quando a velocidade era maior? A maioria optou  pelo antepé (no altofoto 2).

A grande diferença entre as duas pesquisa é que Liberman comparou pessoas que corriam habitualmente descalças e a pesquisa de Hatala é sobre corrida em populações descalças, o que é uma grande diferença.

Quando começamos a correr, descalços ou não, há um tempo para que nós possamos buscar o que é mais eficiente. A meu ver, os resultados da pesquisa foram precipitados ao dizer que o padrão de corrida entre as populações habitualmente descalças não é apenas o antepé.

Veja bem: tudo se baseia em cultura de corrida, adaptações musculares, entre outros. Para mim, nada mudou. Nem para os pesquisadores, que reconhecem que o uso do antepé na aterrisagem é mais eficiente e é isso o que realmente importa.

O que podemos constatar ao final, é que mesmo sendo "habitualmente" descalço, só quem é um "usuário" habitual de corrida descalça é que desenvolve o padrão "natural" de corrida, ou seja, iniciar a pisada com o antepé. O ideal seria que os pesquisadores colocassem os Dassanah para correr pelo menos uns 10 km semanais. Não tenho dúvida que o resultado seria diferente.

Voltando ao que eu disse há dois parágrafos atrás: ao dizer que o padrão de corrida entre as populações habitualmente descalças não é apenas o antepé, temos que entender que não é o antepé pois é necessário ser um corredor habitual para que isso ocorra.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Valeu a pena ter ido ao Simpósio de Lesões na Corrida

[caption id="attachment_2449" align="alignleft" width="960"] Alexandre Dias Lopes, um dos organizadores do Simpósio, durante sua palestra[/caption]

Foi muito bom ter ido ao Simpósio de Lesões na Corrida neste último sábado. Até escrevi um artigo para o Blog Últimas da revista Contra-Relógio sobre o que rolou por lá (clique aqui para ler).

Aqui vou deixar um "testemunho". Soube da realização do Simpósio através de um grande amigo e corredor rapidíssimo Edvaldo Bueno (vulgo Acerola). Ele me mandou uma mensagem pelo Facebook mais ou menos assim: "Serjão, dá uma olhada no site da FPA que vai rolar um Simpósio que tem assunto do seu interesse".

Fui ao site da Federação Paulista de Atletismo crente de que tratava-se de uma brincadeira dele. Achei o link para o Simpósio e tomei um susto. "Caramba, a Irene Davis no Brasil?", pensei comigo mesmo. Irene é fisioterapeuta com doutorado em biomecânica e atua como pesquisadora no Spaulding National Running Center, da Universidade de Harvard. Ela fez parte da equipe chefiada pela professor Daniel E. Lieberman que publicou o famoso trabalho que foi matéria de capa da edição de janeiro de 2010 da revista Nature. Nele foi levantada a hipótese de que correr descalço pode causar menos lesões do que correr com tênis de corrida tradicional, pois os corredores habitualmente descalços geravam uma força de reação menor em uma plataforma de força do que corredores com o padrão de pisada comumente usado — o que inicia pelo calcanhar.

Bom, nem preciso dizer que o trabalho e o artigo causaram um grande alvoroço tanto na indústria como também entre os corredores. No início houve muito ceticismo, mas como o estudo não foi contestado e as marcas de tênis não vieram a público mostrar trabalhos que  mostrassem o contrário, o mercado de tênis minimalista foi crescendo e já ganhou corpo nos EUA e na Europa, até pela demanda dos próprios corredores. Aqui no Brasil a coisa ainda está engatinhando, mas vai indo, pois as grandes marcas já estão trazendo seus lançamentos mais recentes, sendo minimalistas ou reduzidos (vide New Balance, Asics, Nike, Saucony, Skechers e, em breve, Adidas).

Pois bem, entrei em contato com o SPRunIG (São Paulo Running Injury Group), que pertence à Universidade da Cidade de São Paulo (UNICID), para me apresentar, pedir credenciamento para o Simpósio e tentar marcar uma entrevista com a Irene Davis.

Me passaram o contato de um dos responsáveis pelo evento e professor do curso de mestrado em Fisioterapia da UNICID, Alexandre Dias Lopes. Liguei, me identifiquei e passamos horas conversando ao telefone. No bate-papo,  descobri que Alexandre tem uma visão muito favorável à corrida natural e trocamos diversas informações sobre estudos, corridas, padrão de pisada e uma infinidade de outras coisas. A conversa foi tão boa, que ao desligar percebi que tinha esquecido de pedir o credenciamento para o Simpósio...

Resolvido o credenciamento, entrei em contato com a assessoria de imprensa da Universidade para marcar a entrevista com a Irene Davis. Fui ao Simpósio de carona com um casal de amigos de Jundiaí, o Max, que é um ótimo corredor e sua mulher, Andréa, educadora física. No Simpósio esbarrei em alguns conhecidos, como o fisioterapeuta Wesley Craveiro, que conheci em Brasília e com o treinador de Piracicaba Rodrigo Murakami. Também pude encontrar pessoalmente o José Eduardo Gonçalves, com quem tinha trocado algumas mensagens pelo Facebook antes do evento.

O Simpósio excedeu em muito as minhas expectativas. Por que? Porque fizeram algo para questionar convenções e por em dúvida o marketing ligado ao esporte. As palestras derrubaram vários conceitos que estão totalmente enraizados na cultura esportiva, não só dos praticantes de corrida, mas como também os treinadores e profissionais ligados à saúde e reabilitação, como fisioterapeutas e ortopedistas.

O alongamento, por exemplo, questionado pela Contra-Relógio desde 2006, foi alvo de debates acalorados, pois foi deixado claro que não há estudos que comprovem que alongamento previna lesões - e essa é a principal razão dada pelos profissionais de educação física aos seus alunos - a de que alongando o corredor estará menos suscetível à elas.

Foi questionado também o uso de meias de compressão e de palmilhas, por também não apresentarem estudos científicos que apoie o uso desses equipamentos.

A palestra de Matheus de Almeida, que falou sobre aspectos controversos nos tênis tradicionais de corrida, somada à excelente apresentação de Irene Davis, deixou claro que é necessário que as pessoas pensem seriamente em mudar seu padrão de pisada e a adoção de tênis menos estruturados pois ao usar o calcanhar como primeiro contato no chão, o corredor eleva o risco de lesões. Irene, que corre descalça, deixou claro que é necessário aprender a correr corretamente sem calçados antes de tentar os minimalistas e usa sua experiência clínica como exemplo.

Depois do almoço, entrevistei Irene, que é de uma simplicidade impressionante. A entrevista durou  pouco menos de uma hora e quando desliguei o gravador, ela disse "Pronto? Agora me conte a sua história com a corrida descalça".  E continuamos a conversa por mais meia-hora.

Entrei no auditório e a palestra de Alexandre Lopes já estava na metade, mas disse algo muito interessante. Segundo ele, as lesões são multifatoriais, ou seja, algo muito parecido com o que ouvimos sobre acidente de avião - que nunca acontece por um só motivo, mas uma somatória deles. E, para Alexandre, um dos fatores que contribuem para as lesões nos corredores é exatamente o padrão de pisada.

Ao final foi formado um painel de discussão de casos e fui convidado para apresentar algumas dos problemas relatados pelos leitores da CR na seção Medicina Esportiva. As questões são sempre respondidas por José Marques Neto, colaborador da revista de longa data e especialista na área, que aliás, estava presente e fez parte do painel.

Saí do Simpósio contente por ter decidido trilhar pelo caminho (cada vez mais) certo ao adotar os minimalistas e a corrida descalça em 2009. Evidências e pesquisas? Fora o que já apareceu até hoje (ainda pouco), a Irene me disse que tem um grande estudo para ser publicado e que eu vou gostar muito. E você? Já pensou em mudar?